quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

CONVERSA DE BOTEQUIM

Os quatro amigos se encontravam sempre às quartas feira para iniciarem os trabalhos etílicos do final de semana. Era um hábito que já tinha pelo menos oito anos. Formavam um grupo ideal, com discussões que iam de musica para futebol, passando pela política e chegando até à família, já que dos quatro, três eram casados e tinham filhos na adolescência. Victor, o mais jovem, 32 anos, tinha saído da Universidade há três anos, onde quase jubila, mas enfim concluíra o curso de sociologia. Era poeta e metido a escritor. Estava sem trabalho e politicamente sempre tinha uma posição bem avançada, quase radical e sempre batia na tecla de que só as reclamações e choradeiras não eram suficientes para mudar. Achava que tinham que lutar mais, ir pras ruas. Torcedor de Tuna e Vasco, se achava um bom entendedor de futebol, mas era sempre o mais gozado, porque seu time, dos três grandes do Pará, era tido como o terceiro, o mais sofrido e o que tinha menos títulos.
Samuel, o Samuca, era o assumido comunista do grupo. Advogado, sem escritório próprio, usava o escritório de um colega. Prestava serviço como contratado a dois sindicatos de trabalhadores rurais no interior, e de uma associação de pescadores. Contra tudo e contra todos, era outro crítico do sistema. Vindo do heroico PCB, estava sem partido, não sabia se se filiava ao PT ou atendia apelo de alguns amigos que resolveram aderir ao PC do B.
Gildo era indeciso politicamente. Dizia que foi do MR8 nas décadas de 70, 80, mas na verdade não estava filiado, aliás nunca se filiara a partidos. Se autoproclamava de esquerda, mas nunca assumiu ser um militante comunista. Preferia evitar, segundo ele, a pecha. Mas nas greves da categoria -era professor do ensino médio- estava sempre presente e era um dos que mais agitavam.
Geraldo era o mais calmo. Só falava o necessário e tinha passado mais de um mês sem se reunir com os amigos. Um problema sério de coluna o afastara um período do grupo e até do trabalho da agência onde trabalhava como corretor de automóveis.
Samuca era sempre quem puxava as discussões. Polêmico, gostava de exercitar sua veia de homem de esquerda, daqueles que viam erros em todos os setores. Elogio era uma palavra fora de seu dicionário.
-É impossível viver em um país e em um estado onde sempre quem manda é a direita. Sinceramente, como já joguei a toalha em termos de credibilidade nesse país. Em meu estado é até pior. Aqui não acontece nada de novo. Essa direita podre não muda. principalmente em termos de direitos de trabalhador -reclamava Samuel, que aos 43 anos já tinha feito dois concursos públicos, passado nos dois mas nunca fora chamado. Alegava que era sua ficha "de comunista" que não deixava nada fluir em seu favor.
-Eu concordo plenamente com você, porque a verdade é que esses caras não olham nem pelos servidores públicos, quanto mais para trabalhadores comuns. Queria que eles tivessem a hombridade de pelo menos dar aumentos corretos para os servidores estaduais e municipais; pagassem o piso dos professores, por exemplo, que trabalham com educação, necessidade fundamental para todo ser humano, e que aqui ganham uma miséria - concordava reclamando Gildo, professor do ensino médio, com 15 anos de magistério e ainda pagando aluguel.
E continuou: -Se minha mulher ganhasse um pouquinho mais e eu recebesse o piso salarial nacional de professores, nossa vida era bem melhor, meu camarada -garantiu.
-Égua, vocês reclamam pra caramba. Que dirá eu, que no momento estou vivendo praticamente ás custas do que ganha minha mulher?  E tenho que dar graças a Deus, porque moramos numa casa que ela ganhou do pai.  Se não fosse isso, a bronca era mais feia -reclamou Geraldo, o mais pacato dos quatro amigos.
Geraldo estava encostado de benefício, com problemas sérios de coluna. Na concessionária de veículos onde trabalhava, estava ameaçado de ser despedido, o que o deixaria ainda em pior sua situação, pois ganhava um pequeno salário  mais a comissão nas vendas, Como não estava vendendo, o salário só dava para pagar a luz, o IPTU e comprar pequenas coisas de casa. O grosso mesmo era sua esposa que punha em casa.
-Eu quero é ver é a merda feder. Amigos, se o povo não se movimentar, acho que isso aqui vai voltar a ser uma ditadura, como em passado recente. Nunca vi um governo pensar nos mais pobres. Tenho pouco mais de 30 anos e sinceramente como não vejo perspectiva neste país. Tu já pensou aqui no Pará? Só dá PMDB ou tucano. Não muda essa história nunca. E no Brasil é tucano e tucano. Esse boca de suvaco do FHC que se dizia de esquerda é um falso. Está aí governando só pra rico, quer privatizar tudo e lascar ainda mais a todos nós. Gosta de posar de estadista, mas não passa de um vendilhão das riquezas nacionais. Vocês vão ver. Vai terminar conseguindo vender a Petrobras, como fez com a Vale, com a Companhia Siderúrgica Nacional e outras grandes empresas. Não tem compromisso com nada. Só com o bolso dele e dos seus -reclamava Victor, destilando todo o seu rancor nos gestores da nação e do Pará.
A cerveja rolava e o papo fluia normalmente. Já eram quase 23 horas. 
-Hoje eu tô afim mesmo é de dançar. Sair daqui, já que vocês são todos enrolados, eu vou pro Palácio dos bares, pegar uma gata e desfrutar do amor -mudou de assunto Victor.
-Ok. Tu és solteiro mas te lembra que tu tens filho. Cuidado com a Naza. Ela me disse que tu nem vais ver o garoto, espertão -sapecou Samuca sorrindo para o jovem Victor.
-Rapaz, eu até que assumo. Mas não posso fazer muita coisa agora não, né? Estou fazendo um estágio,  e o que recebo não dá nem pra gelada. Mas tô ligado. Assim que as coisas se ajeitarem - o que não acredito muito agora! -vou dar a pensão do garoto. Só não quero mesmo é papo com ela. Perturba muito. É estressada demais -rebateu Victor, decepcionado com sua própria situação.
Por volta das 23,30h os colegas se despediram. Marcaram para se encontrarem no sábado, na pelada, que na verdade era mais um pretexto que sempre encontravam para tomarem mais umas geladas e baterem o saudável papo. 

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

AMOR NA IGREJA

José Luiz é o que pode se chamar de "homem certinho". Nunca bebeu, nunca fumou, não gostava de festa, tinha poucos colegas, sua única diversão sempre foi torcer por seu time, o Paysandu. Do tempo do rádio portátil, Ze Luiz, como todos o chamavam, adorava torcer pelo seu time sozinho, numa rede ou debaixo do pé de açaí na sua querida Igarapé Miri. Poucas vezes veio a Belém, e quando vinha era para resolver algum problema de sua mãezinha, dona Natércia, já idosa e com muitos problemas como Artrose, pressão alta  e diabetes.
Foi seu primo, Adonias, quem o convidou pra vir morar em Belém. Zé Luiz não queria de maneira nenhuma vir pra capital. 
-Rapaz, eu não conheço nada no Belém. Que que eu vu fazer lá? -perguntava sempre ao primo Adonias quando este ia lá em Igarapé Miri, onde a família tinha um sítiozinho e umas plantações de açaí.
-Tô te falando que é legal, rapaz. Já tô em Belém há oito anos, tenho minha casa no Jurunas  e te digo: só quero vir em Igarapé Miri passear -dizia Adonias todo pávulo com o que já havia conseguido na capital.
Foi no começo do ano 2000, depois de tanta insistência do primo, que Zé Luiz veio pra Belém. Como não tinha casa pra morar, ficou mesmo na  casa de Adonias, que era três anos mais velho que ele -25 anos- mas já estava casado e a esposa estava inclusive esperando o primeiro filhinho.
Adonias adorava uma cerveja, mas quando estava com pouco dinheiro, tomava mesmo era uma cachacinha, sem cerimônia. Gostava de beber em casa, pois casado há menos de um ano, era um chamego só com a esposa, Ana Lúcia, uma morena cor de jambo, cinco anos mais nova que ele, muito simpática, sorridente, alegre, apesar de evangélica daquelas que não perdia um culto sábado e domingo numa igreja do bairro.
-Queria que Adonias se convertesse, Zé Luiz. Acho bacana o homem que não bebe. Ele é um homem muito bom, o problema é essa bebida. Às vezes, mano, ele bebe tanto que vai dormir parecendo uma criança. Só acorda no outro dia de tão bêbado  -dizia para o parente, que ouvia tudo calado, pois não queria causar problemas para o primo e amigo que o havia trazido para Belém.
Zé Luiz, através do conhecimento de Adonias, foi trabalhar numa fabrica de palmito, no Jurunas mesmo. Adonias era uma espécie de gerente da fábrica, homem de confiança do dono e conseguiu que Zé Luiz ganhasse logo e início um salário mínimo, que não era lá essas coisas, mas a carteira era assinada e ainda ganhava toda semana umas compotas de palmito picado, que ele como não gostava muito, vendia para uma taberna no bairro.
A medida que crescia a barriga de Ana Lúcia ela mais insistia para o marido Adonias deixar a bebida e se converter. Também insistia muito com o primo dele, Zé Luiz, para entrar na igreja. Só que ele era católico igual à avó e à mãe  e nem gostava de conversar sobre o assunto. Cortou logo a conversa quando a esposa do primo mais uma vez foi assediá-lo para entrar na igreja: -Não dá mana. Minha mãe nunca me perdoaria se deixasse a igreja católica -respondeu pela segunda e última vez, fazendo com que Ana Lúcia não mais insistisse sobre o assunto.
Mas bastou Ana de Nazaré, a filha do casal, nascer, para o coração de Adonias amolecer. Como a esposa parou de ir na igreja evangélica por um período,  pediu para o marido seguir seus passos, fazer sua cobertura como obreira.
-Você tem que cobrir minhas faltas na igreja. Sou uma serva, não posso deixar de frequentar o templo. Vá com o pastor e diga que eu tive neném e procure fazer as obras da igreja. Por favor, amor. Faça isso -implorava Ana Lúcia, ainda de resguardo, ao marido.
E Adonias foi. Falou com o pastor e com mais ou menos uma semana de frequência à igreja, ja virou um fervoroso obreiro. E obreiro daqueles que todos os domingos ía cedo para participar da evangelização e até nos trabalhos mais árduos da igreja.
Zé Luiz a tudo assistia e nada falava. Via o primo transformado: outrora doente por futebol, Paysandu como ele, agora um fanático pela igreja, que discutia até com os antigos amigos da cerveja sobre as vantagens de ser um obreiro.
-Hoje eu estou mais feliz. Estou limpo. Não deixei de torcer pelo Papão, mas pouco me interessa se ele perde ou ganha. Meu compromisso é com a minha igreja -dizia sempre que um amigo lhe cobrava o porquê de haver deixado de beber uma cerveja nos finais de semana.
-Rapaz não faz mal beber uma cerveja, um vinho. isso até ajuda na saúde.
-Tá maluco? Isso é pecado, mano. Eu tô fora! -respondia sempre quando alguém lhe cobrava presença.
A filha de Adonias e Ana Lúcia, a pequena Ana Nazaré, ficava taludinha e seus pais estavam cada vez mais afinados com a igreja. Com quatro meses da filha, Ana Lucia  se preparava para voltar a frequentar a igreja: agora na companhia do marido pretendia ir aos cultos aos sábados e domingos. Adonias, entrara de férias e com o dinheiro que havia recebido ia comprar um novo terno e dar uma boa parte como dízimo para a igreja.
-Por que tu não faz uma reforma nessa casa, Adonias. Eu te ajudo -perguntou Zé Luiz ao primo, mesmo tímidamente.
-Pra que isso, rapaz?  A casa está boa, nós estamos vivendo muito bem aqui. Quem precisa de ajuda é a igreja pra fazer um trabalho melhor com os mais pobres -respondeu Adonias ao primo Zé Luiz.
No domingo, o casal foi para a igreja com a bebê Ana Nazaré. Zé Luiz ficou em casa sozinho. Ouvia uma música no rádio, cozinhava e se preparava para assistir a um jogo de seu time, o Paysandu na televisão.
Por volta das 13 horas os dois voltaram e a comida já estava pronta, preparada por Zé Luiz, que mostrava sempre ser prestativo, quando necessitavam. 
-Poxa Zé você é o máximo. Tenho que te agradecer esse apoio. A partir de amanhã vou fazer uns trabalhos em Mosqueiro, para a igreja, aproveitando este mês de férias. É que um grupo evangelizador está fazendo umas missões pra lá e eu vou ajudar trabalhando. Só volto à noite, mas todos os dias vou estar aqui. Você se quiser poderá vir almoçar aqui em casa. A Ana Lúcia vai ficar aqui e tranquilo dá para você vir em casa ao meio dia.
-Não Adonias. Fico na fábrica. Faço refeição por lá mesmo. Não quero dar esse trabalho pra Ana  -disse Zé Luiz.
Muito cedo, do outro dia, Adonias foi pra Mosqueiro. Tudo por sua conta. Transporte, estada no distrito, alimentação. Queria de qualquer maneira ajudar o pastor Hélio e o pedido da esposa, que queria que ele fosse um obreiro respeitado.
Passou a  primeira semana e já na segunda, Zé Luiz vai um dia tipo 13 horas em casa. Foi pegar um documento. Chegando, não encontrou Ana Lúcia. que segundo a vizinha, havia ido na Igreja ajudar nas obras a pedido do pastor Hélio. Zé Luiz achou estranho tanta dedicação, o marido de um lado, a esposa do outro,  e num horário em que precisava dar maior atenção à filha bebê. Mas como a opção era deles, nada falou. Passou mais de meia hora em casa e Ana Lucia não apareceu.
À noite, preferiu não falar nada para o primo, e notou que Ana Lúcia também não comentara. Para ele era estranho, porque Adonias ficava desde que entrava em casa, falando de como havia sido o dia em Mosqueiro. -Fizemos isso, aquilo, Foi um dia de glória -dizia empolgado o primo fervoroso.
No outro dia, Zé Luiz foi novamente em casa no mesmo horário, 13 horas. Ana Lúcia novamente não se encontrava. Ele preferiu não perguntar nada a vizinha. Tomou banho, trocou de roupa, pois não iria trabalhar à tarde, e se dirigiu para o comércio, onde iria resolver um problema de sua mãe.
No caminho, passou na igreja e viu Ana Lúcia com a bebê nos braços, que saia do templo, conversando com o pastor Helio. Sentiu um clima de muita afinidade entre os dois. O pastor quase encostando seu rosto no da esposa de seu primo. Zé Luiz achou a atitude dos dois muito esquisita, estranha, mas mais uma vez preferiu ficar na sua. Como Ana Lúcia não o havia visto, ele à noite, não falou nada para o primo sobre o que tinha presenciado.
Adonias continuava com sua missão de obreiro em Mosqueiro. Ana Lúcia, segundo uma vizinha comentou com Zé Luiz, todos s dias estava na igreja, na hora do almoço. Era das 12 até perto de 15 horas.
Zé Luiz na verdade ficara encucado com o que havia presenciado. Já existia até comentários sobre Ana Lúcia e o pastor Hélio, homem jovem, na faixa dos 38, 40 anos, alto e com um forte sotaque sulista. Segundo soubera, inclusive pela boca do próprio primo Adonias, pastor Hélio era casado, mas a esposa não estava em Belém. Soube também que enquanto a esposa não chegava, pastor Hélio vivia na igreja, onde também dormia e trabalhava seu rebanho de homens e mulheres. Homens que ele sempre deslocava para missões em Icoaraci ou Mosqueiro, onde a congregação estava também construindo uma igreja; enquanto que as mulheres ele determinava que tinham que cuidar das coisas da igreja do bairro do Jurunas. Ana Lúcia era uma delas, serva fervorosa, ao ponto de sair de sua casa todos os dias para servir à igreja. Zé Luiz já estava segurando a historia há quase 10 dias, período este que coincidia com o trabalho que o primo Adonias fazia em Moqueiro, aproveitando as férias.
Um dia, uma terça feira, Adonias veio para casa mais cedo. Havia faltado um material em Mosqueiro e ele veio para avisar ao padre Hélio para comprar a tempo de chegar no outro cedo no bucólico distrito de Belém.  
Ao chegar em casa, por volta de 12,30h não encontrou a mulher nem a filha. Esperou uns 15 minutos. Como a esposa não chegou,  resolveu perguntar à vizinha, dona Arlete, se ela sabia onde Ana Lúcia tinha ido, se havia deixado algum recado.
-Não sei meu vizinho. Pode ser que ela tenha ido à igreja -disse dona Arlete quase gaguejando, temendo o pior.
-Ok vizinha. Obrigado.  Vou esperar mais um pouco -agradeceu Adonias.
Ana Lúcia só chegou por volta das 14,30h. Adonias, embora impaciente, resolveu não perguntar muito, mesmo porque Ana foi logo dizendo que tinha ido resolver um problema da filha. Mas  com seus botões estranhou muito, principalmente porque a mulher entrou em casa com um tipo de marmita térmica em uma sacola.
-Que houve homem, não estavas em Mosqueiro? -perguntou Ana Lúcia. 
-Faltou material. Tive que vir pra avisar ao pastor. Vou até lá com ele.
À noite, Adonias contou para o primo Zé Luiz o acontecido. Estava tenso, não conseguiu segurar. Zé Luiz não falou nada do que sabia ou pelo menos suspeitava. Não tinha essa índole de dedurar ninguém. Mas ficou com uma certa pena do primo. Imaginava que Adonias estava passando por um problema muito sério.
A verdade é que Adonias ficou muito desconfiado. Porém, mesmo assim, no outro dia foi cedo para Mosqueiro. A cabeça era um zumbido só. Por que a mulher tinha chegado tão tarde e com uma marmita? Para quem ele levara aquela comida?  As perguntas se multiplicavam. Sua cabeça girava. mas preferiu dar tempo ao tempo.
Continuou por mais dois dias indo cedo para Mosqueiro. Depois de muita insônia e dor de cabeça, decidiu que na sexta feira não iria
Foi na fábrica pegar um restante do dinheiro das férias. Conversou com o pessoal e pouco mais de meio dia foi para casa. Convidou o primo Zé Luiz para ir com ele, tendo o mesmo aceitado. Não foram pra casa. Rumaram direto para a igreja.  Lá chegando, viu a igreja fechada, então foi pelo lado e notou a porta da igreja do quarto que o pastor dormia levemente encostada. Na companhia do primo, empurrou e a cena que presenciou nunca mais sairia de sua cabeça. Pastor Hélio estava completamente despido e Ana Lúcia sem calcinha e tirando o sutiã. Adonias avançou para cima do pastor, que correu despido com a calça na mão, fugindo pela porta dos fundos, pegando seu carro e desaparecendo desesperado. Zé Luiz tentava acalmar o primo, mas este enlouquecido peguntava à esposa o que significava aquilo.
Ana Lúcia só chorava, enquanto a pequena Ana Nazaré, parecendo entender tudo que acontecia, também abriu o berreiro. Zé Luiz conseguiu acalmar e sentar o primo. Ana Lúcia, em prantos só dizia que não sabia o que havia acontecido. 
-Não era eu. Algo se apossou de mim. Do meu corpo. Meu Deus me ajude! -gritava desesperada e aos prantos a mulher de Adonias.
-Conversa é essa, Ana. Você me traindo com esse pastor safado. E eu me matando por essa igreja e por esse bandido em Mosqueiro! -gritava nervoso Adonias.
-Não fale assim de mim. Você bem sabe que se tenho culpa, você também tem -respondia Ana Lúcia.
O casal saiu da igreja em silêncio quase sepulcral, graças aos esforços de Zé Luiz, que pediu que Ana tentasse acalentar a filha, que chorava desesperadamente. Ana Lúcia com muita luta conseguiu acalmar a filha e seguir para casa.
Os primos tomaram outro rumo. Foram para um bar. Adonias, que havia praticamente abandonado a bebida, só tomando vez por outra um vinho, nesse dia encheu a cara. Tomou todas. Zé Luiz, que não bebia, nesse dia companhou o primo na cerveja. Os dois choraram e lamentaram a situação do casal e principalmente da criança Ana Nazaré.
Chegaram em casa, Ana não estava. Segundo a vizinha, dona Arlete, ela arrumara uma mala e havia saído.  Mas deixara um  bilhete de poucas linhas.
" Estou indo embora. Pra mim basta. Fiz o possível para ficar a seu lado. Mas o amor que sinto pelo Hélio foi mais forte e venceu. Não se preocupe com nossa filha. Vai ser bem cuidada e breve darei notícias". Ana Lúcia.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

COM CARINHO E COM AFETO

A noite para aquele grupo parecia mesmo uma criança. Os cinco bebiam desde as quatro da tarde, já era mais de 10 da noite e tudo parecia muito bem, tudo normal, a não ser alguns aconchegos e o papo já famoso de Rui Gonçalves, velho boêmio do bairro da Marambaia, conhecido pelos mais antigos parceiros desde os anos 70, como Rui Cheiroso.
Rui era tranquilo, gostava de uma porrinha, um carteado, dominó e era o cobra da sinuca. Tinha sempre dinheiro, mas na realidade não se sabia em que trabalhava. Uns diziam que era seu avô que bancava; outros, que a mãe tinha umas casas alugada e sustentava o filho único.
Unhas sempre pintadas, cabelos com bastante brilhantina -Rui era do tempo do óleo Glostora e não relaxava, andava sempre com o cabelo brilhando, na maior pínta.
Carro não tinha, mas para as distâncias maiores andava em sua bicicleta, sempre enfeitada e com direito a luz atrás para evitar acidentes. Sua conversa era sempre na base de muitas gírias, quase todas bem antigas, dessas que não se ouve mais; mas era educado e não tinha envolvimento com coisas erradas. -Meu lance é só o meu cigarro e o gelo", gostava de deixar bem claro.
Rui era cavalheiro, e adorava reverenciar as mulheres, sempre usando um carme de bom malandro.
-A gente poderia fazer um rolê para outras paragens, né gatas?  O Cheiroso aqui está muito afim de emendar pela noite, inclusive poderíamos ir daqui pra Icoaraci. Tem ambientes simpáticos por lá, que com certeza dá pra gente curtir. Tá afim Fernando? -indagou Rui para o amigo que com ele estava com as três garotas. 
-perfeito meu mano. Acho que as gatinhas vão querer acelerar com a gente. Vamos pegar um táxi -concordou Fernando.
As três garotas,  Cláudia, Alice e Nazaré eram todas do bairro vizinho, a Nova Marambaia. Haviam saído para o comércio e lá perto da Igreja das Mercês, encontraram Rui e Bernardo, e como uma delas, Cláudia, conhecia Rui, pararam, começaram a conversar, fora convidadas a tomar uma gelada. Tomaram três cervejas no Ver-o-peso e depois foram para mais perto de casa, a Marambaia, onde no momento decidiam se iam ou não para Icoaraci. Alice era a mais nova das três, tipo 25 anos, solteira, mas com namorado. Nazaré era também jovem, 31 anos, era casada, e segundo falava para as amigas, estava em litígio com o marido, que era motorista de ônibus. Já era casada há oito anos e dizia que não estava mais dando certo. 
-Sinceramente como não aguento mais aquele traste que eu tenho em casa. Homem que não valoriza a mulher que tem. Chega em casa todo dia tarde da noite e ainda bebido. Nunca me leva pra canto nenhum, e pra me dar dinheiro pra comprar algo pra mim e pra meu filho, é um sufoco. Tenho que tirar do bolso quando ele está dormindo. Credo de vida! -se lamentava.
Rui achou que estava dado o bote. Não queria Cláudia por ser, segundo ele, muito amiga e mesmo o Fernando já estava de olho. Alice era novinha e ele, já com 52, preferia uma mais madura, segundo ele, e experiente.
-Sabe Naza, me amarei em você. Pena você ser casada. Poderia ser a mãe dos meus filhos! -disse em tom de galanteio Rui.
-Pena que já sou operada e filho já basta o meu bebê de sete aninhos. Sobre ser casada, tem uma vírgula ai. Estou em tempo de quase separação. Não estou legal com o tal lá! -respondeu Nazaré sorrindo.
-Realmente, tem homem que não merece o bibelô que tem em casa. Tenho certeza que você é uma santa, além de ser linda mulher, daquelas que o cara fica arriado, como estou! -arrematou Rui,
Cláudia, que era conhecida de Rui,  decidia se iam ou não para Icoaraci. Fez sinal para as colegas que levantaram o dedo dando positivo. Agora era acertar o táxi, pois de ônibus não era muito legal, não.
Bernardo, até que já havia concordado. mas sentindo que talvez as meninas descem pra trás e como estava com dinheiro mas não podia estourar muito, pois tinha despesas em casa, propôs a Rui para irem para outro bar no mesmo bairro.
-Taí. Tô dentro! -gritou Alice ao ouvir o convite de Bernardo. -Leva eu também! -emendou Cláudia. Nazaré completou: Tô no jogo! E saíram os cincos de táxi para outro bar, mais perto da Tavares Bastos.
Já era quase 23 horas quando Nazaré -a única realmente que era comprometida, igual a Bernardo, que também era casado mas não tinha essa de horário -começou a se beijar com Rui. Beijos e abraços, toques mais sensuais, numa paixão inesperada meio louca tomou conta dos dois. Alice observava a amiga e cutucava Cláudia, que tentava das tentativas de Bernardo. -A doida  pirou! -comentou Alice com Cláudia, que sorriu e gesticulou com a cabeça.
Cláudia terminou cedendo ao charme de Bernardo, que entrou de chapa na morena. Tava tudo feito. Só Alice estava sobrando. Disse logo que não entraria em nenhuma brincadeira, tipo três mulheres e dois homens.  -Ainda não aprendi a gostar de mulher! -disse a mais jovem das três garotas, deixando claro que sua onda era outra. -Fico na minha e vocês curtam à vontade! -definiu Alice.
Decidiram que pegariam um táxi, deixariam Alice perto da casa dela e iriam os dois casais para um motel. -Melhor a gente dá a grana para ela ir, já que não quer ficar com a gente! -arrematou Bernardo.
-Não! Deixamos ela no caminho e vamos viver nossas vidas! -finalizou Rui decidido.
Já se preparavam para pegar um táxi, quando um carro parou perto deles. Do veículo desceu um homem, muito rápido e demonstrando estar meio transtornado, quase gritando, rumou em direção á Nazaré.
-Sua puta,agora você me paga! -disse o homem, tentando agredir a mulher, que se esquivou de qualquer maneira.
-Calma, amigo. Qual  problema? -perguntou Alice, puxando o valentão pelo braço.
-Que que você quer, sua piranha?  -perguntou agressivamente o homem. -Essa vagabunda aí é minha mulher! -apontou para Nazaré. -Sim, e ela não pode beber uma cerveja comigo, meu namorado e o namorado da minha amiga? Você por acaso é dono dela? E por que fica chamando ela de puta, vagabunda, me difamando e agredindo todo mundo? -e partiu pra cima do valentão, já que era a mais nova, mas também a mais alta e demonstrou ser muito corajosa.
-Camarada, manera aí. Fica frio, não provoca. Tu tá maluco? -perguntou Rui na tranquilidade.
-Tu chega, não conhece as pessoas, agride minha amiga, a mim... Já pensou se o namorado dela não fosse tranquilo? Sabia que ele é policial e poderia encher tua cara de bala, otário? -gritou Nazaré, cheia de moral deois da ação da amiga Alice e do esperto Rui.
Mário, o marido valentão, baixou a cabeça, pediu desculpas,, olhou para a mulher, nada falou e foi saindo de fininho. Desapareceu na noite, deixando os cinco amigos na tranquilidade.
O táxi chegou, Alice sentou ao lado de Rui, Nazaré no banco traseiro numa ponta, Cláudia na outra e bernando no meio, imprensado pelas duas.
Em vez de deixarem Alice no meio do caminho, foram os cinco para a Locomotiva, onde fizeram a festa. Sorriram muito e agradeceram tudo ao valentão marido de Nazaré.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

NAMORO (OU AMIZADE) EM COTIJUBA

O popopô deslizava sorrateiro pelas águas da Baía do Guajará com destino à Ilha de Cotijuba. A viagem, até que não foi demorada, mas para os que são temerosos de andar de barco, lancha ou até de navios, dá um friozinho na barriga, principalmente quando passa por galerias -e olhe que são muitas!-
fazendo com que os mais medrosos arregalem os olhos assustados e as crianças abram o berreiro. Tem marmanjão que ameça até pular do barco, preferindo se arriscara nadar do que morrer afogado num possível naufrágio. . Pense!
Na ilha de Cotijuba, onde outrora funcionou um presídio de onde surgiram várias histórias atribuídas a um governador militar, certamente algumas lendas, os passageiros do barco, muitos em sua primeira viagem à bonita região, se deslumbravam com a paisagem ainda bem natural e tentavam entender como viviam os nativos moradores do paraíso.
-Aqui a gente vive como Deus quer. Mas não falta muito pra gente ser feliz, não -garantiu Jonas, um morador que trabalha numa das charretes que leva os turistas e veranistas às praias.
-Mas que é bonito é -arrematou Alice, paraense de Bragança, que já conhecia Belém mas nunca havia ido na famosa ilha.
Cotijuba fica defronte à Icoaraci, funciona também como distrito dormitório, uma vez que parte da população trabalha em Belém. O nome, segundo a história, foi dado pelos índios Tupinambás, e significa "Trilha dourada".
Muitos seguiram para as praias em grupos, que eram formado por seis, cinco, quatro e até três pessoas. Poucos foram os casais que seguiram, principalmente para a praia mais famosa e também a mais distante, a "Vai-quem-quer". O nome, segundo os moradores de Cotijuba, foi dado devido mesmo a distância da praia, ainda bem natural, apesar de algumas pequenas pousadas e casas particulares, mas com uma estrutura suportável para o ambiente bucólico do lugar.
-Em Vai-quem-quer tem gente que pratica até nudismo, mano  -garantiu Jonas, que se preparava para levar um pequeno grupo em sua charrete para a bucólica praia.
Na chegada a Vai-quem-quer Ana, Paulo, Juca e Niceia, quatro amigos de Belém que já conheciam à praia, não ficaram em pousada. Preferiram alugar uma barraca grande e armaram mesmo bem perto da praia.
Na primeira noite em Vai quem-quer foi maravilhosa pra os quatro amigos. Ana e Paulo já eram formados em Fisioterapia, enquanto os outros dois amigos, Niceia e Juca, se preparavam para entrar no ensino superior.
-Um ambiente desses faz a gente pensar em tanta coisa, em tantas fantasias, em tantas bobagens -falou Paulo, olhando para Niceia, sob o olhar da amiga Ana.
-Olha -disse Ana-, por mim eu não tenho preconceito com nada, e pode ter certeza que eu hoje vou tomar todas, inclusive já peguei minha garrafa de vodca. Já tome duas doses pequenas, mas queria que alguém se habilitasse a fazer uma batida. tenho limão na bolsa -completou.
-É pra já -disse Niceia.
Paulo e Juca tomavam uma cerveja em lata que haviam levado.  Como era pouca, logo se acabou e eles emendaram na batida. Enquanto isso, as meninas já estavam com todo gás, de biquíni e prontas até para um delicioso banho noturno. 
Por volta de 23 horas a praia do Vai-quem-quer já estava povoada por pelo menos uma 15 pessoas. 
Casais passeavam juntos, amigas desfilavam de duas peças e até mesmo só com a parte de cima do biquíni, com muita tranquilidade, paz e despreocupação, pois ninguém estava ali pra vigiar ninguém.
Ana caminhou sozinha para a beira da praia. Já tinha bebido várias doses de batida de vodca com suco de maracujá e adoçante. Quando os três deram pela falta da amiga saíram em seu encalço, dois para um lado Niceia e Paulo- e Juca pelo outro. Encontraram a moça sentada sozinha na beira da praia, copo de batida vazio ao lado, pés descalços e bem à vontade sem a parte superior do biquini, ou seja fazendo, na calada da noite, um topless.
-Menina, estávamos te procurando -falou Niceia que, acompanhada de Paulo, foi logo sentando ao lado da amiga. Um forte abraço com direito a selinho marcou o reencontro dos amigos. Juca, só apareceu uma meia hora depois, certo de que os amigos já haviam se encontrado.
O banho de mar noturno foi providencial para eles que já estavam bebidos. Niceia, que havia bebido menos, ficou cuidando de todos para que não acontece nenhum acidente no banho.
Adormeceram na praia, dormiram abraçados, Juca com Ana e Paulo com Niceia. Não haviam combinado nada, apenas bebiam e conversavam, mas  quando o sono chegou houve um súbito aconchego parecendo bem natural, embora com os aparentes pares trocados, apesar de serem todos amigos e ninguém ter compromisso com ninguém.
No outro dia, saíram cedo logo ao raiar do sol, para a barraca. felizmente estava tudo tranquilo, não haviam mexido em nada. Pouco conversaram. Após trocarem de roupa, rumaram à procura de um bem café da manhã. 
Juca foi o primeiro a se manifestar: "Que que houve ontem, pessoal? Qual foi Paulo, por que você ficou agarrando a Niceia, seduzindo-a até que dormiram juntos"?
-Nada a ver. Nem me lembro. mas se rolou alguma coisa, podes crer que não houve intenção -respondeu Paulo. E continuou: "Aliás, não sabia se você era namorado dela ou coisa parecida".
-Não sou nada. Apenas pensei uma coisa na nossa vinda e aconteceu outra -respondeu Juca, sorrindo e quebrando o gelo.
-Pois eu não pensei nada e o que aconteceu foi ótimo, Juca, E você Niceia, gostou da noite? -indagou 
Ana sorrindo. -Gostei e quero repetir. E fica tranquilo, Juca. Pode ser  com você. Afinal somos todos amigos, aqui ninguém namora ninguém, é só amizade. Quanto mas colorida melhor -completou uma Niceia nem parecendo a moça calada, quase tímida que chegara à Cotijuba.
Os quatro saíram abraçados, foram a uma pequena birosca, compraram bebida e voltaram pra barraca onde conversaram até tarde, juntinhos, comemorando a bela amizade entre os quatro.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

DESTINO IMPREVISÍVEL

Seu Américo, que na realidade era tenente da Aeronáutica, queria que os três filhos seguissem, como ele, a carreira militar. Os meninos, Stelio, Silvano e Sandro estudaram em colégio militar e religioso. Cariocas, de Realengo, eram meninos tidos como bonitos, bem criados e muito educados. mesmo filhos de pais classe média, faziam amizade com todos, embora não fossem de sair para a rua pra jogar futebol, empinar pipa e outras brincadeiras naturais que todos garoto de bairro coloca em primeiro lugar da vida.
Aos 15 anos de Stelio, o mais velho, vieram para Belém. O pai, já reformado, montou ma empresa de material de construção para ão ficar parado.
-Quero que meus filhos estudem, se formem. Já que não querem seguir a carreira militar, que era um de meus sonhos, tudo bem. O destino das pessoas quem manda é elas. Eu queria, mas nem o Stelio, que é o meu primeiro, quer, paciência -resignava-se seu Américo, pai dos meninos. Um homem ainda muito jovem, com menos de 50 anos. Aposentara-se da Aeronáutica por causa de problemas na coluna, o que lhe fazia sentir muitas dores. -Mas não vou me operar. Não quero ficar aleijado -falava sempre para os poucos amigos  que tinha feito em Belém, terra de sua esposa, dona Carmem.
Com 17 anos Stelio concluiu o segundo grau e, compenetrado que era nos estudos, fez o Convênio e enfrentou o vestibular para Engenharia Civil, sonho dos pais e também dele, um craque em matemática.
Não foi daquela vez que seu Américo e dona Carmem comemoraram a chegada á universidade do filho primogênito. Não reclamaram muito, mas entre si, demonstraram insatisfação, mesmo porque Stélio, souberam, estava namorando uma menina do Convênio, Rita, da mesma idade dele.
Rita era morena, educada, demonstrava muito carinho por Stelio, que correspondia. os pais quando descobriram atribuíram á moça o fracasso no vestibular.
-Não sei por que seus pais reclamam de você não ter passado. os meus ao chiaram muito, não. Somos muito jovens ainda, temos a vida toda pela frente -tentava conformar o namorado Rita, demosntrando experiencia nos seus 17 anos.
Já Stelio ficara triste por não ter passado, conversara com a mãe, que falara sobre o namoro, garantindo que isso iria prejudicá-lo novamente.
-Pode ter certeza, meu filho, se você não parar com esse namoro, vai se dar mal de novo. Primeiro os estudos, depois o namoro -insistia dona Carmem, preocupada em ver o filho muitas vezes pelos cantos da casa, cabisbaixo. E de uma coisa ela tinha razão: bastava Stélio brigar com Rita, ter uma pequena discussão, que ele ficava triste e nem comer direito, comia.
No Cursinho Stelio procurava fazer sua parte e garantia que Rita não lhe atrapalhava. Resolveram até fazer um acordo: "vamos estudar juntos e passar esse ano no vestibular, você pra Odontologia e eu pra Engenharia. Vamos mostrar ao papai e à mamãe  que temos responsabilidade. Mesmo porque, papai já garantiu o meu carro s eu passar. Já pensou, com 18 anos eu ter meu carro? -sonhava acordado o jovem Stélio com sua amada Rita, já pensando nos passeios que fariam dentro de pouquíssimo tempo.
Stelio decidiu que iria passar no vestibular. Não era somente pela promessa do carro, que ele sabia que o pai cumpriria, mas era porque tinha um compromisso também com Rita, que não pretendia fiar por baixo na empreitada e chegar à Universidade.
Veio o vestibular e os dois fizeram. Stélio demonstrava um certo receio, puro nervosismo ele mesmo admitia, porque em seu íntimo tinha certeza de que estava preparado. O mesmo acontecia com Rita. Era uma das primeiras da classe. Dedicada e atenta aos professores. Nas noitadas que antecederam às provas, ficavam juntos e até aproveitavam alguns intervalos para namorar. 
Seria praticamente impossível que os dois mão tivessem sucesso.
Conferiram o gabarito e o resultado foi positivo para Stélio. E muito bem colocado. Um dos primeiros. Nota altíssima. Rita bateu na trave, mas não deu. Chorou um pouco, mas conformou-se.
Para Rita, seu amado passando já era o suficiente.
Seu Américo e dona Carmem fizeram uma grande festa para comemorar o sucesso do filho Stélio no vestibular para Engenharia Civil. O primeiro dos três filhos já estava encaminhado. -Graças a Deus minhas preces foram ouvida -agradecia a fervorosa dona Carmem. Seu Américo ficou radiante que até tomou um vinho, já que não era de beber.
No outro dia entregou a chave ao filho Stélio, que já tinha carteira. O Fiat Uno estava na concessionária para o próprio filho, que já possuía carteira, ia pegar. Stélio agradeceu muito, beijou os pais, e fi pegar o carro. Sua intenção, segundo falara, era dá uma primeira volta com a namorada Rita.
Chave nas mãos, documento do carro, Stélio ruma à locadora e pega o veículo, na cor que sempre sonhara. Bege, bem clarinho. Entrou, sorriu e saiu dirigindo. Quando chegou mais ou menos no terceiro quarteirão depois da locadora, um caminhão apressado o pegou de cheio. O carro desgovernado deu de encontro a um muro, fazendo Stélio ser cuspido à uma distância de quase três metros. Os que presenciaram o terrível acidente, garantiram que Stélio teve morte imediata. Como o fato aconteceu numa parte central da cidade, perto do bairro do Umarizal, Stélio foi socorrido mas todos foram unânimes em dizer que já chegou no PSM sem vida.
A notícia chego logo para s pais que correram para o local e viram o estado do carro zero quilômetro: todo destruído. Pelo que viram, logo entenderam que era praticamente impossível Stélio ter sobrevivido. Rumaram ao PSM e receberam a triste notícia do falecimento do filho. Dona Carmem não suportou e desmaiou. Seu Américo teve um pique de pressão e tece que ser atendido às pressas.
Ritinha só soube duas horas depois. Através de uma amiga que lhe participou por ter ouvido no rádio.
Os dois irmãos de Stelio, Silvamo e Sandro, inconsoláveis, tiveram que cuidar de todos os procedimentos para o velório e enterro do irmão querido. 
Dois meses depois os pais de Stélio voltaram definitivamente para o Rio de Janeiro. os filhos, Sandro e silvano, permaneceram ainda até o final do ano em belém, para conclusão dos estudos. Depois rumaram para o Rio. 
A família ficou praticamente destruída com a morte prematura do primeiro filho. O casal, segundo  alguns amigos, se recolheu a uma Chácara no estado do Rio. Perderam -Seu Américo e Dona Carmem -um pedaço de suas vidas. Os dois outros filhos deram sequência ás suas vidas.
Ritinha passou por maus momentos. Parou de estudar, só voltando dois aos depois. Formou-se em Odontologia como era seu sonho.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

A DAMA DO VER-O-PESO

Quem frequentou a antiga feira do Ver-o-peso, na década de 90, antes da reforma feita pelo prefeito da época, Edmilson Rodrigues, deve ter conhecido ou pelo menos visto muitas vezes, a Adélia. Morena baixinha, corpo esguio, cabelo cacheado, era frequentadora diária da velha feira. Adélia dançava, bebia, sorria e transava com o cliente que lhe interessasse. Alguns diziam que se prostituía,. Tudo indicava que Adélia fazia vida no Veropa de guerra. Porém, era querida por todos e simpática, principalmente quando não estava bebendo.
Ninguém sabia na verdade sua origem, se tinha familiares, se tinha filhos, se tinha residência. Alguns comentavam que Adélia  havia sido casada, mas separou-se "não se acostumou a viver presa", como falava as suas amigas de copo.
Quando estava sem beber -e isso era raro!- Adélia era a simpatia em pessoa. Fazia pequeno mandados e era comum vê-la fazendo as unhas "mão e pé" em algum lugar da feira.
Suas roupas caiam bem em seu corpo esguio. Shortinho curto, blusinha que deixava sempre a barriga de fora e o cabelo longo e solto em cachos brilhosos. Era vaidosa e sempre estava bem vestida.
Adélia era jovem, pouco mais de 20 anos. Sorria sempre que alguém tirava uma graça, mas virava uma fera e discutia feio quando alguém falava de seu time de coração, o Clube do Remo.
De repente Adélia desapareceu. De um minuto para outro a bela morena, adeira cativa na feira, não foi mais vista. Uns diziam que ela havia ido para uma boate que havia sido inaugurada na Cremação. Outro garantia que havia visto a morena na Feira da 25. Na verdade, Adélia havia desaparecido mesmo. E com certeza não tinha acontecido nada de mal com a aquela que muitos chamavam de Dama do Ver-o-Peso, pela sua simpatia e pelo jeito simples de se comunicar com quem ela conhecia.
Adélia tinha clientes fixos. Fábio, que muitos diziam que era vice prefeito de uma cidade do interior era um deles. Sempre estava com ela, pelo menos uma ou duas vezes por mês, quando vinha de sua cidade no arquipélago do Marajó, para Belém.
Fábio era frequentador sempre de uma mesma de barraca, e quando começou a sentir falta de Adélia, passou a procurá-la por todo Ver-o-peso, de barraca em barraca. Ninguém informava o paradeiro da garota. As informações eram sempre desencontradas. Chegou a ir por três vezes, dois dias seguidos, na Feira da 25 na intenção de encontrar sua morena lá. Tudo em vão.
Uma das vezes, já desencantado com a procura em vão há bastante tempo, Fábio embriagou-se e chorou como uma criança desmamada em uma mesa. Embriagado, caiu por cima da mesa equase acidenta, pois na queda quebrou algumas garrafas de cervejas que se avolumavam na mesa depois de quase um da inteiro. "Queria pelo menos saber onde ela estava, com quem estava. Eu prometi que iria viver com ela" -disse o apaixonado Fábio, conhecido como vice prefeito, para a dona do bar no Ver-o-peso.
Dessa declaração de amor quase em público de Fábio surgiram vários boatos. Um deles foi de que  Adélia tinha engravidado e havia ido para Cachoeira do Arari, onde pretendia ter seu bebê junto com sua família.
Mais uma estória. Tudo lorota. Pessoas que conheciam Adélia mais a fundo desmentiram o boato dizendo que a morena era realmente do Marajó, mas de Ponta de Pedras, segundo uma moça que apareceu e se identificou como prima dela, que sempre vinha a Belém e que já a havia procurado em vão e garantiu que lá pelo interior Adélia não tinha dado as caras.
Passado pouco mais de dois anos, o Ver-o- peso já estava em suas novas instalações, muita gente nova, novos barraqueiros, mas com muitos remanescentes da velha feira ainda em atividades, uma tarde aparece uma moça muito bem vestida, com joias vistosas e uma cabelo muito bem cuidado. Muitos juravam que ela era muito parecida com a Adélia, talvez pela altura e pelos traços, embora essa estivesse com uma aparência bem diferente, bem mais fina, bem cuidada. Nos dois primeiros dias que foi ao Veropa, bebeu todas e sempre acompanhada de um senhor loiro, olhos claros, aparentando uns 45 anos. 
-Sou capaz de jurar que aquela moça morena com aquele gringo é a Adélia -garantiu uma senhora antiga barraqueira.
-Pior que parece pra porra -disse seu companheiro, também veterano na feira.
Mas ninguém se aventurava a perguntar, embora os mais afoitos tentassem saber se ela falava português ou se tinha "a língua enrolada", como dizem.
Mais ou menos no quarto ou quinto dia seguido, pulando de barraca em barraca, és que a morena com seu gringo a tiracolo, foi numa barraca de uma velha conhecida. Chegou por volta das 13 horas, comeu uma porção de gó frita, pediu uma gelada e só falava com seu companheiro na língua dele, que ninguém sabia se era inglês ou outra. 
Já perto das 19 horas. o gringo já estava legal, e a morena que alguns juravam ser Adélia, não perdia a pose, embora já demonstrasse um ar de que o peso da bebida estava chegando.
-Conheço isso aqui como a palma de minha mão -soltou de repente, em bom português bem paraense a morena para a dona do bar. -Vivi pelo menos oito anos de minha vida nesse Ver-o-peso, só que não era assim, era escroto todo! -continuou.
-Meu Deus, não me diga que você é quem eu estou pensando -disse a dona da barraca
-Sou sim. Sou a Adélia mesmo. Reconheci a senhora também, desde segunda feira, o primeiro dia que vim aqui. Só que estava criando coragem pra falar. A senhora sabe, né, minha vida hoje é outra -
completou a hoje a vistosa e elegante morena, meio grogue, mas bastante consciente do que falava.
Daí foi só abraços e beijos. O gringo sorria muito, embora não entendesse nada. Alba, a dona da barraca, foi logo comunicar aos mais antigos e ao marido que não estava na hora, que Adélia estava na área, "no nosso Ver-o-peso querido".
Nesse dia a festa continuou até perto das 23 horas e seria por conta da empolgada e feliz barraqueira dona Alba, se Adélia não tivesse interferido e praticamente ordenasse que era por conta dela. -Meu marido é quem vai pagar tudo. Ele quem me encorajou de falar. Como prêmio, vai pagar gelada para todos os amigos que vierem, pode convidar -gritava uma feliz Adélia, que aos amigos, embora com a voz um pouco embaraçada pela  contou sua nova vida.
-Moro há quase três anos na Holanda. Graças a Deus e ao meu marido holandês minha vida mudou.
O conheci aqui mesmo, numa tarde, não estava nem bebendo.  Ele começou a me olhar, conversamos, começamos a beber e dai vocês imaginam o resto. Confesso pra vocês que deve ter sido a primeira vez que senti prazer em fazer amor. Muito delicado, cheiroso e sem me exigir nada, o Jordan me conquistou de primeira e eu também o conquistei, né? -confessava uma Adélia sorridente, sensível,  feliz e muito humana, misturando chorro e riso de emoção ao rever pessoas de sua época de "Dama do Ver-o-peso. 
Jordan, o marido holandês, pouco falava. Preferia sorrir, demonstrando participar daquele êxtase de felicidade de uma ex-pobre moça que praticamente renasceu para a vida, mas que não perdera sua origem humilde. 
No outro dia Adélia só foi no Ver--peso para se despedir das velhas conhecidas. Ia para o Marajó, Para Ponta de Pedras, onde não ia desde que deixou Belém, embora mantivesse contato cm sua família, principalmente pai e mãe. "Vou aproveitar uns dias com minha família", disse à dona Alba.
Desde que fora para a Holanda , Adélia estava ajudado seus pais. Conseguiu comprar uma boa casa para os velhos e montou uma venda para seu irmão garantir uma renda para seus pais.
A antiga Dama do Ver-o-peso agora era uma dama realmente. A sorte ou o amor, batera em sua porta. E ela, como boa, marajoara, não deixou passar. Hoje era a sra. Jordan, residia na Holanda e tinha cidadania holandesa e europeia.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

PÃO COM MANTEIGA

Olívio da Silva não parava de perguntar as horas a todos os colegas de trabalho. Malandro diplomado, como ele próprio dizia, não falava pra ninguém, mas tinha um encontro marcado na boca da noite, mais ou menos entre as seis, sete horas,
-Égua mano, dá oito mas num dá sete horas! -resmungava a todo momento.
Tipo seis e meia saiu do trabalho e se dirigiu a um dos colegas, o Mário:
-Enfim, vou encontra minha gata, que está saindo do trabalho.
-Onde ela trabalha? - perguntou Mário.
-Lá pra baixo, perto da Prefeitura.
-Égua, tu vais de a pé daqui  do Reduto até lá? Deve ser um femão, não? -perguntou sorridente Mário.
-Das boas. Ainda não estamos juntos, mas me ajuda muito. Namoramos já há uns dois meses, e quase todo dia pego ela na saída - sussurrou sorrindo Olívio.
Mário foi com Olívio caminhando do bairro do Reduto, da fábrica de beneficiamento de castanha onde trabalhavam, até perto da Prefeitura de Belém. Antes, pararam num bar e tomaram três cerpinhas, que era para dar tempo da garota do amigo sair do trabalho.
-Ela trabalha em loja do comércio, Olívio? -perguntou curioso Mário, já incomodado com o horário, pois já passava das 19 horas.
-Não, não. Calma que ela tá chegando -garantiu um Olívio parecendo já estar vendo sua amada.
Não demorou e Célia apareceu. Sorridente, cabelo soltou e brilhoso, com um sorriso malicioso, deixando Olívio alegre e Mário sem entender o local de onde a moça desceu.
Com uma cara de espanto e sem coragem para nada falar, Mário caminhou com os dois pela 13 de Maio em direção à Presidente Vargas. O amigo de Olívio estava com a cabeça cheia de pensamentos. Por que aquela mulher saiu de um lugar tão estranho? Por que Olívio não me disse onde ela trabalha?
As cerpinhas que os dois tomaram antes de encontrarem Célia deixaram Mário meio atônito, com a língua coçando para fazer muitas perguntas ao amigo.
-Vamos parar aqui para tomar uma Mário? eu pago! - convidou Olívio parecendo que havia recebido o pagamento do mês. -Bora -respondeu Mário, embora estranhando a atitude do amigo, considerado "mão de vaca", daquele tipo que preferia que pagassem pra ele.
Os três sentaram no Bar do Portuga, já perto da Presidente Vargas. Mário, sempre desconfiado do "moral" que Olívio ganhara depois que Célia apareceu.  A gelada rolou solta. Não era mais Cerpinha, mas a de 600ml, da grande. Célia mostrou ser boa de copo, e Olívio nem se fala. Como ele sempre dizia: "beber eu bebo e até amanheço, agora tóxico não é comigo. Mesmo porque, maconha, que a turma vende la no meu bairro vende direto, é tóxico de pobre".
lá pelas 22 horas já tinham uma 11 geladas na mesa. Mário, que morava em Icoaraci, era quem se preocupava mais com a hora. 
Antes da chegada da conta, Mário foi ao banheiro, demorou uns três minutos, e quando ia chegando na mesa, viu Célia dar umas três cédulas de 50 reais para o parceiro Olívio. Arregalou os olhos espantado, mas na hora, ficou calado. Minutos depois,  aproveitou quando Célia foi ao banheiro  para satisfazer toda sua curiosidade para perguntar:
-Ei cara, qual foi essa aí? Vi a gata te dar uma grana. Ela recebeu hoje?
-Que nada, mano. Ela recebe é todos os dias. Temos uma sociedade. Todos os dias ela vai trabalhar a partir das 13 horas e fica até seis, sete horas e com isso garante diariamente uma boa grana. Dividimos e assim somos felizes.
-Mas como ela consegue ganhar tanto dinheiro em tão poucas horas? É comércio?
-Na realidade, não deixa de ser, meu caro. Só que ela é a grande mercadoria. Usa esse corpão que Deus lhe deu todas as tardes lá no Xendengo para faturar pra nós. E eu né, meu caro, parei de me preocupar com meu salário na indústria de castanhas. Nem vale recebo mais, porque tenho grana todos os dias -pavulava-se um Olívio desconhecido para o amigo Mário.
-Poxa, rapaz, mais isso é prostituição, e tu estás explorando a mulher! -quase gritou alarmado Mário, no momento em que Célia chegava do banheiro.
-Calma meninos, o que está havendo? algum problema? por que vocês estão falando tão alto? -perguntou a namorada de Olívio quase sorrindo, pois escutara o final da conversa dos dois amigos.
-Nada. O Mário está estranhando o seu trabalho -respondeu Olívio sorrindo.
-Olha Mário, o Olivinho é meu namorado e meu empresário. Ele que organiza nossa vida, nosso dinheiro. Estamos nos preparando para viver juntos. Ele fazendo o trabalho dele na fábrica de castanha e eu no Xendengo. Nem eu nem ele temos ciúmes. Ele me apanha todos os dias, só não domingo, lá perto do meu trabalho, e saímos tranquilos. Sempre tomamos umas e depois vamos nos amar -disse Célia com ar de muita tranquilidade.
-Égua. Muito estranho! -admirou-se Mário.
-Por que? Meu querido, isso não estraga. Lavou tá novo. E outra coisa: fica bem limpinho, eu cuido bem pra ele -concluiu Célia,jogando todo seu charme para Olívio e Mário.
-E eu nunca como "pão com manteiga" porque tá sempre limpinho, e ela sabe que eu sou exigente, não é nega? -garantiu um Olívio risonho expondo toda sua malandragem ao estupefato amigo Mário.
Mário preferiu sorrir com o canto da boca, se despediu e correu para pegar quase o "Cristo" de Icoaraci.